Dificuldade de ereção tem componente vascular, hormonal, neurológico, medicamentoso e emocional, e na maioria dos homens mais de um deles participa. O padrão ajuda a separar: início gradual, perda também das ereções matinais e da masturbação, e presença de fatores de risco cardiovascular apontam para causa orgânica. Início súbito, ligado a uma parceria ou situação específica, com ereções preservadas em outros contextos, aponta para componente predominantemente psicológico. A avaliação começa por história dirigida, exame físico e exames de sangue, e a disfunção erétil é também um marcador precoce de risco cardiovascular.
Quase toda consulta sobre esse assunto começa pela mesma frase, dita com alguma pressa: é físico ou é da minha cabeça? A pergunta é boa e a resposta honesta é que, na maior parte dos homens, é dos dois. Uma dificuldade que começou por causa vascular gera ansiedade de desempenho, e essa ansiedade passa a piorar o quadro por conta própria, criando um ciclo que já não tem uma causa única.
Isso não impede a distinção. O que separa os componentes não é um exame sofisticado, é o padrão de como a dificuldade começou e em que situações ela aparece. Essa parte da consulta é conversa, e é ela que orienta tudo o que vem depois.
O padrão que aponta para causa orgânica
- Início gradual: a dificuldade se instalou ao longo de meses ou anos, sem um marco claro.
- Acontece em todas as situações: com parceria, sozinho e independentemente do contexto.
- Ereções matinais ausentes ou raras: a perda das ereções espontâneas do sono é um dos sinais mais informativos.
- Fatores de risco vascular presentes: hipertensão, diabetes, colesterol alto, obesidade e tabagismo.
- Rigidez insuficiente desde o início: não é perder no meio, é não alcançar firmeza suficiente.
O padrão que aponta para componente emocional
- Início súbito: dá para localizar quando começou, às vezes em um episódio específico.
- Situacional: acontece com uma parceria e não com outra, ou em determinado contexto apenas.
- Ereções matinais e na masturbação preservadas: o mecanismo funciona, o que muda é a situação.
- Relação clara com estresse, conflito ou período de sobrecarga: melhora em férias e piora em fase tensa.
- Perda da ereção durante a relação, sobretudo depois de um episódio ruim anterior: a marca da ansiedade de desempenho.
Nenhuma dessas listas é um teste. Elas mudam a probabilidade e a ordem da investigação, e é comum um homem reconhecer itens dos dois lados. Reconhecer os dois não é indefinição, é a descrição mais fiel da maioria dos casos.
O que a avaliação procura
A avaliação começa por história dirigida e exame físico, e passa por exames de sangue que investigam o que sustenta o mecanismo: glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, testosterona total colhida pela manhã e, conforme o caso, outros hormônios. Boa parte das causas orgânicas aparece nessa etapa, sem exame de imagem.
A revisão das medicações em uso costuma render mais do que se espera. Alguns anti-hipertensivos, antidepressivos, antipsicóticos e medicamentos para a próstata interferem na função erétil, e o mesmo vale para álcool em quantidade e para substâncias de uso recreativo. Uso de anabolizantes merece menção específica, porque suprime a produção natural de testosterona e o efeito persiste depois da interrupção.
Quando a suspeita é de causa vascular e o resultado muda a conduta, entra o ultrassom doppler peniano com fármaco indução, que avalia o fluxo arterial e a retenção de sangue no pênis durante a ereção. Ele não é exame de rotina para todo mundo, é indicado em situações definidas, como quadro que não responde ao tratamento inicial, homem jovem com disfunção importante ou história de trauma na região.
O sinal que costuma passar despercebido
As artérias que irrigam o pênis são estreitas, mais finas que as coronárias. Por isso a doença que reduz o calibre dos vasos costuma dar sinal ali antes de dar em outros territórios. A disfunção erétil de origem vascular funciona como um marcador precoce de risco cardiovascular, e pode anteceder em alguns anos um evento cardíaco.
Essa é a informação mais útil deste texto, e a menos esperada por quem chega ao consultório. A consulta que trata da dificuldade de ereção também é a que verifica pressão, glicemia, colesterol e circunferência abdominal, e essa parte não é enchimento de exame: é o motivo pelo qual não se deve resolver o assunto pedindo medicação a um conhecido. O sintoma pode estar dizendo algo sobre o coração, e o comprimido tomado por conta própria silencia o aviso sem tratar o que o gerou.
Sobre o tratamento, existe um conjunto de opções, e a escolha depende da causa identificada, das doenças associadas e das medicações em uso. Vale a mesma regra do resto da medicina: sem avaliação não há indicação, e alguns tratamentos são contraindicados em situações específicas, o que só se sabe perguntando. Quem mora em Belo Horizonte ou na região metropolitana pode fazer essa avaliação no consultório da Savassi, e vale levar a lista de medicações em uso e exames recentes.
Este texto é informativo e não substitui consulta médica. Medicações para disfunção erétil têm contraindicações importantes, entre elas o uso de nitratos, e não devem ser usadas sem avaliação individual.