O espermograma mede características de uma amostra de sêmen coletada em um dia específico: volume, concentração, motilidade, morfologia e vitalidade. Um resultado fora da referência indica que aquela amostra ficou abaixo do limite adotado, não que existe infertilidade. Os valores da OMS são limites inferiores de referência obtidos em homens cujas parceiras engravidaram em até doze meses, e não uma linha que separa fértil de infértil. Por isso o exame costuma ser repetido antes de qualquer conclusão, com pelo menos algumas semanas de intervalo.
Poucos exames são lidos com tanta ansiedade e tão pouco contexto quanto o espermograma. O laudo chega com uma coluna de valores, outra de referências e um asterisco onde algo ficou fora. Entre receber o resultado e conseguir uma consulta passam-se dias em que a maioria dos homens já concluiu sozinha o que o exame não disse.
Vale começar pelo que ele é: uma descrição de uma amostra, coletada em um dia, analisada por um laboratório específico. Não é uma medida direta da capacidade de ter filhos.
O que cada parâmetro mede
- Volume: quanto de sêmen foi ejaculado. Volume muito baixo pode apontar coleta incompleta, período curto de abstinência ou questão obstrutiva.
- Concentração e número total: quantos espermatozoides existem por mililitro e no total da amostra.
- Motilidade: a proporção que se move, e dentro dela a que se move para a frente, chamada de progressiva.
- Morfologia: a proporção com formato dentro do padrão, avaliada por critérios estritos que reprovam muito por definição.
- Vitalidade: a proporção de células vivas, relevante sobretudo quando a motilidade está muito baixa.
- pH, liquefação e leucócitos: características da amostra que podem sugerir infecção ou alteração das glândulas acessórias.
A morfologia é a que mais assusta e a que mais se interpreta mal. Pelo critério estrito adotado na referência da OMS, o limite inferior fica em torno de 4% de formas normais, o que significa que um exame considerado dentro da referência já traz a grande maioria das células com alguma alteração de forma. Ler 6% como se fosse uma nota escolar é o erro mais comum.
Referência não é linha de corte
Os valores de referência do manual da OMS foram obtidos a partir de homens cujas parceiras engravidaram naturalmente em até doze meses, tomando o percentil mais baixo desse grupo. Isso tem uma consequência direta na leitura: estar abaixo do limite não define infertilidade, e estar acima não garante gravidez. Existem homens com todos os parâmetros na referência que enfrentam dificuldade, e homens com resultados abaixo que engravidam a parceira sem tratamento.
O espermograma é ponto de partida da avaliação, não conclusão. Ele orienta quais perguntas fazer em seguida, e essas perguntas mudam conforme a história clínica, o exame físico e a avaliação da parceira.
Por que um exame só não basta
A produção de espermatozoides leva cerca de três meses do início ao fim. O que aparece no exame de hoje reflete condições de meses atrás, e há uma variação natural grande entre amostras do mesmo homem. Por isso a conduta habitual diante de um resultado alterado é repetir, respeitando um intervalo de algumas semanas, antes de qualquer conclusão.
- Abstinência fora do recomendado: o intervalo usual é de 2 a 7 dias, e sair dele altera volume e concentração.
- Febre ou infecção recente: um episódio febril pode reduzir os parâmetros por semanas ou meses.
- Coleta incompleta: perder a primeira porção do ejaculado derruba a concentração medida.
- Tempo e temperatura até a análise: amostra coletada em casa e transportada mal chega ao laboratório com motilidade menor.
- Medicamentos, álcool e tabagismo: alguns afetam a espermatogênese de modo reversível.
- Uso de testosterona ou anabolizantes: reduz de forma marcante a produção de espermatozoides, e a informação precisa ser dada ao médico.
O que costuma vir depois
A avaliação seguinte é clínica antes de ser laboratorial. História de criptorquidia, caxumba depois da adolescência, cirurgias inguinais, infecções, exposição ocupacional a calor ou a agentes químicos, uso de medicamentos e ciclos de anabolizante mudam a interpretação do resultado. O exame físico procura, entre outras coisas, alterações de volume testicular e a presença de varicocele palpável.
- Repetição do espermograma: confirma se a alteração é consistente ou pontual.
- Dosagens hormonais: FSH, LH e testosterona total, conforme o quadro.
- Ultrassom com doppler de bolsa escrotal: avalia testículos, epidídimos e drenagem venosa.
- Avaliação genética: indicada em contagens muito baixas ou ausência de espermatozoides.
- Fragmentação de DNA espermático: exame complementar, com indicação específica e não de rotina.
Quem faz o exame por conta própria e chega com o laudo em mãos costuma se surpreender com o quanto a consulta muda a leitura dele. No consultório da Savassi, em Belo Horizonte, o resultado é interpretado junto com a história e o exame físico, e a orientação é levar todos os espermogramas já feitos, com data e nome do laboratório: comparar amostras analisadas em serviços diferentes exige saber de onde veio cada número.
Este texto é informativo e não substitui consulta médica. A interpretação de um espermograma é individual e depende de história clínica, exame físico e, quando indicado, exames complementares.